Pular para o conteúdo principal

Dize-me do teu gosto musical e direi como és

Há grande correspondência entre gosto musical e características da personalidade. Esta é uma recente conclusão de uma pesquisa realizada com mais de 36 mil pessoas ao redor do mundo. A pesquisa, liderada pelo prof. Adrian North, diretor do departamento de Psicologia Aplicada da Universidade Heriot-Watt, está sendo considerada como a mais abrangente já feita nessa área.

O estudo sugere que fãs de música clássica são introvertidos, enquanto aficionados de heavy metal são afáveis e vivem em paz consigo mesmo; fãs de country trabalham duro e também são sociáveis como os fãs de reggae, que já não seriam chegados na dureza do batente; fãs de “indie” (termo genérico para música independente/alternativa) sofreriam com baixa auto-estima, mas seriam criativos como os apreciadores de música clássica, reggae, pop/rock e jazz. Estes três últimos estilos são do gosto de pessoas com elevada auto-estima.

Segundo o professor North, são surpreendentes “as similaridades entre fãs de música clássica e fãs de heavy metal. Ambos são criativos e vivem em paz consigo, mas são pouco sociáveis”. Isso contradiz a visão do público em geral que conserva “o estereótipo de que fãs de heavy metal são suicidas depressivos e um perigo para si e para a sociedade”.

Sobre o assunto há um oceano de pesquisas. Algumas delas, com clara indisposição em relação aos aficionados da música pop e total rejeição aos apreciadores de heavy metal, reggae e rap. Segundo as pesquisas, os fãs desses estilos musicais são maus alunos, têm péssimo comportamento social, tiram notas baixas, tendem a usar drogas e dirigir alcoolizados, enfim, são uns capetas em forma de fãs. As conclusões desse tipo de pesquisa são um prato cheio para o exercício do pânico moral dos conservadores mais exaltados e inacreditavelmente são usadas por professores universitários para confirmar sua própria predileção pela música erudita (que pra eles termina em Tchaikovski). Além disso, quando falam em rock, de que rock estão falando: o de Elvis ou o de Johnny Cash? O do U2 ou o do Sepultura? Se é dos Beatles, de que fase dessa banda? O mesmo vale para a música clássica: estão falando de música renascentista, das sonatas de Beethoven, das peças de Penderecki?

A pesquisa da Universidade Hariot-Watt, apesar de generalizar as singularidades e diversificações que há dentro de cada estilo musical listado, faz várias perguntas sobre relacionamento e atitudes e oferece 104 alternativas de escolha de gêneros musicais. Entretanto, boa parte dessas pesquisas falha fragorosamente em sua metodologia porque dão pouca ou nenhuma importância ao contexto extra-musical do entrevistado (nem vou falar daquelas pesquisas com ratos e música. Qual seria mesmo o contexto social e intelectual dos ratos?). Qualquer pesquisa que esteja desatenta ao desenvolvimento sonoro-musical do indivíduo e às circunstâncias sócio-culturais em que ele está inserido está fadada a apresentar resultados pouco confiáveis, pois investiga apenas a reação do sujeito ao estímulo sonoro-musical e deixa de lado o por quê da reação desse indivíduo.

Assim, muitos vão concluindo genericamente que o pop/rock e o rap são estilos de pessoas com perturbações psíquicas. Não ocorre a esses pesquisadores que não é porque alguém escuta hip-hop que vai tirar notas baixas na escola, mas é todo o complexo de família-escola-bairro-desemprego-personalidade que pode levar (ou não) um estudante a gostar mais de Eminen do que de Chopin. Eles também não percebem que a acessibilidade a um currículo diversificado e a um professor qualificado passa por questões socialmente mais restritivas para uns do que para outros.

Outro exemplo: uma questão que foi tocada ainda superficialmente é o emprego de funk, reggae, pagode e hard rock por tantos religiosos. Estilos associados comumente à sensualidade e ao uso de drogas e álcool são “convertidos” e usados para alcançar pessoas à margem do evangelho e da sociedade com resultados tão controversos quanto satisfatórios. Os jovens recém-conversos (e que ouvem a versão gospel desses estilos) serão maus estudantes e motoristas, ou trabalhadores irresponsáveis e sexualmente libertinos? Não é o que o apontam outras reportagens e estudos a respeito.

A metodologia inadequada e as conclusões unilaterais de certas pesquisas acabam revelando não apenas ignorância e estreiteza intelectuais, mas também uma orientação ideológica motivada por preconceitos de classe, cor ou religião. Pode haver razões para o alerta acadêmico em relação a estilos musicais, mas não será o cientificismo rasteiro à base de reações de roedores ou observações de boletins escolares que dará as melhores respostas, até porque não faz as melhores perguntas.


Para responder o questionário resumido da pesquisa da Hariot-Watt, clique aqui ou entre no site peopleintomusic.com.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Lutero e a Reforma da música - parte 1

Andreas Karlstadt acaba de publicar em Wittenberg um panfleto com 53 tópicos condenando a liturgia católica, rejeitando seu formato, seu idioma e sua música inacessível ao canto congregacional. Isso foi manchete em março de 1522. Naquele ano, Martinho Lutero, após seu exílio no castelo de Wartburg, voltava para Wittenberg, onde em 31 de outubro de 1517 ele publicara suas 95 Teses. Isso continua sendo manchete há 499 anos. Esperava-se que o Dr. Lutero, o reformador protestante, apoiasse Karlstadt. Mas ao chegar na cidade, Lutero profere uma série de oito sermões com o intuito de corrigir a reforma litúrgica radical de Karlstadt. A reforma luterana deveria ser mais cautelosa e mais conservadora devido 1) à necessidade de reformar o ensino bíblico antes de modificar o ritual e 2) ao apreço de Lutero pelo canto tradicional polifônico. As proposições reformadoras de Lutero cuidaram de preservar o aparato cerimonial da missa católica, cuja música, linguagem e ornamentações possuíam alto valor …

uma imagem que vale mil canções: história da música dos adventistas

A história da música adventista no Brasil passa obrigatoriamente pelos músicos nessa foto, tirada num encontro de músicos no Rio de Janeiro: 1ª fila, da esq. para direita: Mário Jorge Lima, Williams Costa Junior, Jader Santos 2ª fila: Evaldo Vicente, Valdecir Lima, Lineu Soares, Flávio Santos 3ª fila, à direita: Alexandre Reichert Filho
[Não conheço o trabalho de Wilson Almeida e Horly de Oliveira, na 3ª fila, da esquerda para direita. Por isso, vou mencionar somente os demais músicos].
No final dos anos 1970 e início dos anos 80, tendo como epicentro o Instituto Adventista de Ensino (hoje, UNASP-SP), eles viabilizaram uma mudança de paradigma sacro-musical que impactou a estrutura musical e poética tradicional e mobilizou um novo modelo de prática musical para as igrejas adventistas no Brasil.

Trata-se de uma foto carregada de capital simbólico, visto que reúne uma geração espetacular de letristas, maestros, instrumentistas, compositores e arranjadores que deram novos rumos à música…

quando a teologia canta