Pular para o conteúdo principal

Auto-da-fé


Luiz Fernando Veríssimo, no jornal Estado de São Paulo, de 25 de setembro:

"O vocabulário dessa crise do capital financeiro é evocativo: as instituições falidas estão sendo “sanadas”, livradas dos seus ativos “podres”, “purgadas” das suas práticas espúrias, garantidas contra o “contagio” de um mercado doente...

"Poderíamos estar na Veneza do século treze, ouvindo pregações contra o pecado da usura e seus efeitos na higiene social e na alma dos cidadãos, ou na Florença de Savanarola, que também misturava corpo sensual e corpo político e pretendia purgar os dois da ganância e das tentações do dinheiro auto-gerado, claramente uma idéia do Diabo. Os cristãos de então consideravam a cobrança de juros uma comercialização herética do tempo, e vinha de Aristóteles a condenação da usura porque dinheiro não pode procriar como um animal.

"Um contemporâneo de Shakespeare escreveu que o usurário vivia da “lechery”, lascívia, do dinheiro e não era incomum relacionarem a reprodução anti-natural de dinheiro por dinheiro com luxúria e prostituição. O que naquela época era anti-natural com o tempo se tornou natural e a mudança começou na metafísica: para que os cristãos que lucrassem com juros não fossem condenados à danação eterna, inventou-se o Purgatório, de onde os pecadores saem sanados e recuperados para o céu.

"Depois de alterar a cosmogonia cristã não foi difícil para o capitalismo financeiro ganhar o mundo e, nos últimos anos, dominá-lo. Mas, curiosamente, se o dinheiro gerado por dinheiro se tornou respeitável e hoje é a forma mais rentável, portanto mais abençoada, de capitalismo, para expiar os excessos da prática ainda se recorre à linguagem de Savonarola. O Diabo, afinal, tem a última palavra. O pecado acabou mas a culpa continua.

"O americano Tom Wolfe escreveu um romance sobre, entre outras coisas, um Mestre do Universo, que é o nome que se dão os executivos de financeiras que têm ganhos obscenos com o dinheiro dos outros, e seus infortúnios numa Nova York conflagrada em que sua riqueza e seu poder não o protegem da penitência que se aproxima. Fizeram um filme do livro, chamado “A fogueira das vaidades”, o nome da grande fogueira comunitária em que Savonarola mandava os florentinos queimarem suas posses de luxo e recuperarem a virtude perdida com a ganância e o uso anti-cristão do dinheiro.

"O livro eu não li e o filme não é bom, mas Wolfe foi profético: chegou finalmente a conta para os Mestres do Universo pagarem - ou os contribuintes americanos pagarem por eles. Ninguém irá para o Inferno, ou para o Purgatório, ou sequer será queimado, como o próprio Savonarola, pelos seus excessos. A virtude recuperada será a do velho mercado livre, talvez só com um pouco mais de comedimento e controle. Mas por um breve momento voltamos ao passado e assistimos a um educativo auto-da-fé sobre a usura castigada e a ganância penitente".

* * * * *

Lembro da cena final do filme A fogueira das vaidades quando um dos personagens principais, um yuppie que se envolveu em especulações pra lá de gananciosas e escusas na Bolsa, se pergunta e responde: "De que vale ganhar o mundo e perder a alma? Bem, tem suas vantagens". Essas são palavras que falam mais que mil imagens.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Lutero e a Reforma da música - parte 1

Andreas Karlstadt acaba de publicar em Wittenberg um panfleto com 53 tópicos condenando a liturgia católica, rejeitando seu formato, seu idioma e sua música inacessível ao canto congregacional. Isso foi manchete em março de 1522. Naquele ano, Martinho Lutero, após seu exílio no castelo de Wartburg, voltava para Wittenberg, onde em 31 de outubro de 1517 ele publicara suas 95 Teses. Isso continua sendo manchete há 499 anos. Esperava-se que o Dr. Lutero, o reformador protestante, apoiasse Karlstadt. Mas ao chegar na cidade, Lutero profere uma série de oito sermões com o intuito de corrigir a reforma litúrgica radical de Karlstadt. A reforma luterana deveria ser mais cautelosa e mais conservadora devido 1) à necessidade de reformar o ensino bíblico antes de modificar o ritual e 2) ao apreço de Lutero pelo canto tradicional polifônico. As proposições reformadoras de Lutero cuidaram de preservar o aparato cerimonial da missa católica, cuja música, linguagem e ornamentações possuíam alto valor …

uma imagem que vale mil canções: história da música dos adventistas

A história da música adventista no Brasil passa obrigatoriamente pelos músicos nessa foto, tirada num encontro de músicos no Rio de Janeiro: 1ª fila, da esq. para direita: Mário Jorge Lima, Williams Costa Junior, Jader Santos 2ª fila: Evaldo Vicente, Valdecir Lima, Lineu Soares, Flávio Santos 3ª fila, à direita: Alexandre Reichert Filho
[Não conheço o trabalho de Wilson Almeida e Horly de Oliveira, na 3ª fila, da esquerda para direita. Por isso, vou mencionar somente os demais músicos].
No final dos anos 1970 e início dos anos 80, tendo como epicentro o Instituto Adventista de Ensino (hoje, UNASP-SP), eles viabilizaram uma mudança de paradigma sacro-musical que impactou a estrutura musical e poética tradicional e mobilizou um novo modelo de prática musical para as igrejas adventistas no Brasil.

Trata-se de uma foto carregada de capital simbólico, visto que reúne uma geração espetacular de letristas, maestros, instrumentistas, compositores e arranjadores que deram novos rumos à música…

quando a teologia canta