29 setembro, 2008

Auto-da-fé


Luiz Fernando Veríssimo, no jornal Estado de São Paulo, de 25 de setembro:

"O vocabulário dessa crise do capital financeiro é evocativo: as instituições falidas estão sendo “sanadas”, livradas dos seus ativos “podres”, “purgadas” das suas práticas espúrias, garantidas contra o “contagio” de um mercado doente...

"Poderíamos estar na Veneza do século treze, ouvindo pregações contra o pecado da usura e seus efeitos na higiene social e na alma dos cidadãos, ou na Florença de Savanarola, que também misturava corpo sensual e corpo político e pretendia purgar os dois da ganância e das tentações do dinheiro auto-gerado, claramente uma idéia do Diabo. Os cristãos de então consideravam a cobrança de juros uma comercialização herética do tempo, e vinha de Aristóteles a condenação da usura porque dinheiro não pode procriar como um animal.

"Um contemporâneo de Shakespeare escreveu que o usurário vivia da “lechery”, lascívia, do dinheiro e não era incomum relacionarem a reprodução anti-natural de dinheiro por dinheiro com luxúria e prostituição. O que naquela época era anti-natural com o tempo se tornou natural e a mudança começou na metafísica: para que os cristãos que lucrassem com juros não fossem condenados à danação eterna, inventou-se o Purgatório, de onde os pecadores saem sanados e recuperados para o céu.

"Depois de alterar a cosmogonia cristã não foi difícil para o capitalismo financeiro ganhar o mundo e, nos últimos anos, dominá-lo. Mas, curiosamente, se o dinheiro gerado por dinheiro se tornou respeitável e hoje é a forma mais rentável, portanto mais abençoada, de capitalismo, para expiar os excessos da prática ainda se recorre à linguagem de Savonarola. O Diabo, afinal, tem a última palavra. O pecado acabou mas a culpa continua.

"O americano Tom Wolfe escreveu um romance sobre, entre outras coisas, um Mestre do Universo, que é o nome que se dão os executivos de financeiras que têm ganhos obscenos com o dinheiro dos outros, e seus infortúnios numa Nova York conflagrada em que sua riqueza e seu poder não o protegem da penitência que se aproxima. Fizeram um filme do livro, chamado “A fogueira das vaidades”, o nome da grande fogueira comunitária em que Savonarola mandava os florentinos queimarem suas posses de luxo e recuperarem a virtude perdida com a ganância e o uso anti-cristão do dinheiro.

"O livro eu não li e o filme não é bom, mas Wolfe foi profético: chegou finalmente a conta para os Mestres do Universo pagarem - ou os contribuintes americanos pagarem por eles. Ninguém irá para o Inferno, ou para o Purgatório, ou sequer será queimado, como o próprio Savonarola, pelos seus excessos. A virtude recuperada será a do velho mercado livre, talvez só com um pouco mais de comedimento e controle. Mas por um breve momento voltamos ao passado e assistimos a um educativo auto-da-fé sobre a usura castigada e a ganância penitente".

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Lembro da cena final do filme A fogueira das vaidades quando um dos personagens principais, um yuppie que se envolveu em especulações pra lá de gananciosas e escusas na Bolsa, se pergunta e responde: "De que vale ganhar o mundo e perder a alma? Bem, tem suas vantagens". Essas são palavras que falam mais que mil imagens.

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