02 setembro, 2008

Esportistas, graças a Deus

Valdeno Brito tem 34 anos e nasceu em Campina Grande, Paraíba. Estreou na categoria em 2004 e nunca havia vencido uma prova, apesar de já ter conquistado duas poles. Ele é o único nordestino da Stock Car.

- É muito difícil formar pilotos por lá, pois não temos um autódromo – disse o piloto.
- Parei de correr em 2004 por falta de patrocínio. Só voltei em 2004 graças a uma ajuda do governo da Paraíba. Foi um milagre, pois nunca desisti e sempre confiei em Deus.
Ele diz ainda: Todos na Medley [sua equipe] merecem. Sou apenas uma parte da preparação da equipe. Por isso, o prêmio será compartilhado por todos.

Intervenção divina ou não, o fato é que a corrida lhe foi surpreendentemente favorável, mesmo considerando que “surpresa” não é bem uma novidade no mundo do automobilismo. No duelo entre Luciano Burti e Ingo Hoffman pelo terceiro lugar, Valdeno Brito levou a melhor. Hoffman perdeu o controle do carro e Burti foi punido com uma ida ao boxe por encostar em Jorge Neto.
Com a troca de pneus, o piloto ganhou algumas posições, até ficar em segundo lugar, na cola de Cacá Bueno, que liderava a corrida até então. Quando tudo parecia definido em favor de Cacá, uma pane elétrica tirou a chance de vitória do filho de Galvão Bueno.
Foi quando Valdeno assumiu a ponta e conduziu seu carro para sua primeira vitória na categoria e o topo do pódio na Corrida de 1 Milhão de Dólares.

Após a vitória, o piloto disse que o triunfo devia ser partilhado “com o Senhor Jesus Cristo, pois foi Ele quem me tirou das trevas para a luz”. Mais tarde, revelou ter perdido a cabeça no passado, afastando-se da família, da carreira e mergulhando nas drogas. Entende-se, assim, o agradecimento de Valdeno Brito. Milhares vão dizer que se trata de um caso simples de reorientação na vida, esforço humano e sorte. Valdeno Brito tem certeza de que não foi só isso.
* * *

Em entrevista coletiva, o jogador Roberto Brum usou uma típica analogia evangélica: a história da águia que, não conseguindo mais alçar altos vôos, procura um lugar para reanimar-se. Dali, após bicar-se (!?) e renovar as forças, ela parte rumo às alturas outra vez. Parece motivacional de palestra de auto-ajuda, mas foi com essa história que Roberto Brum procurou estabelecer uma analogia entre a situação do seu time, o Santos (caindo pelas tabelas do campeonato), e a águia que sofre para voltar ao topo. Não sei se as águias têm dessas ansiedades e proposições de vida, mas é uma metáfora que deve funcionar no meio futebolístico. Afinal, cada história tem seu público.

Roberto Brum, em outra entrevista, dessa vez falando do momento individual que viveu no clube, começou a cantar uma música de letra e linha melódica pentecostais. No meio da canção, o jogador emocionou-se e quase não completa versos como:

[Deus] Pega a pessoa que não tem mais jeito
Põe uma medalha no seu peito
Porque Deus é maior
Ele é o Deus do impossível
Vira pelo avesso essa situação
Pega a pessoa fracassada e faz virar patrão

Será que se ele cantasse ‘levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima’ iriam apreciar mais? Quando os jogadores reproduzem a mímica do “créu” as TVs não saem exibindo a semana toda? Por que muitos ridicularizaram o jogador?

Parte dessa rejeição ao evangelicalismo atual é uma reação ao comportamento exaltado de um tipo predominante de evangélico. Este não termina uma frase sem repetir um “em nome de Jesus”, com o semblante extasiado, à procura de entretenimento religioso e salvação econômica. Num país de muitos pobres, as denominações neopentecostais oferecem a oportunidade de inclusão e ascensão social. Com o fim de outras tantas restrições comportamentais (quanto à locais de freqüência, vestuário, música) e a recente oferta de uma enorme variedade de produtos gospel (sandálias, camisetas, xampus, cosméticos em geral), o evangélico encontrou na liberalização de costumes e na expansão midiática e econômica seus estandartes para afirmar-se socialmente – embora diga fazê-lo “em nome de Jesus”.

Assim, não é apenas o conteúdo em parte renovado em parte tradicional do neopentecostalismo e seu crescimento que espantam os outros grupos religiosos (e também os não religiosos). É também a forma estridente com que comunica suas mensagens, é o uso emocionalista que faz do encontro religioso, é o emprego de padrões enviesados de marketing, é a má-fé denunciada com que conduz sua mistura de empresa-igreja. Por certo, outras denominações, em menor ou maior grau, possuem essas características. Mas o neopentecostalismo, por atirar-se tão sofregamente a sua proposta de renovação cultural-religiosa acaba por atrair mais atenção e trazer mais opróbrio ao evangelho simples de Cristo.

Voltando ao caso do jogador, se é verdade que nem só de fé vive o futebolista, mas também de todo empenho e desempenho nos treinos e jogos, não cabe a discussão aqui. Quero ressaltar a atitude do atleta na entrevista. Ele apenas relembra alguns fatos tristes de sua situação anterior no clube e, conduzido pelas perguntas dos repórteres, agradece a Quem ele crê que mereça... e canta.

Certo esnobismo musical desprezará o estilo da canção. Certo farisaísmo evangélico tomará por ridícula as desafinações do cantor. Não é porque falei em bossa nova no texto anterior, mas com certeza no peito do desafinado (evangélico) também bate um coração.

Alguém já deve ter expressado de outra maneira, mas não lembro de uma melhor. Por isso, valem os versos de Newton Mendonça:

Se você disser que eu desafino, amor
Saiba que isso em mim provoca imensa dor
Só privilegiados têm ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu

Aqui, o vídeo de Roberto Brum cantando na entrevista

Um comentário:

cândido gomes disse...

dei uma vista geral em seu conteúdo. muito interessante e variado. vai figurar na minha lista de links. abraço.