26 novembro, 2008

Muito barulho por nada

Se houve um tempo em que as pessoas iam aos cinemas para entrar em outro mundo, conhecer outras realidades ou simplesmente escapar da dureza da vida real nem que fosse por duas horinhas, esse tempo parece cada mais longe.

Ninguém precisa entrar num cinemark pra entender isso. Críticos comentam que muita gente não se desliga do mundo lá fora e continua com os celulares ligados. A atenção dedicada é menor. Noutro dia, uma matéria na TV mostrou um cinema em que a platéia era formada de pais com seus bebês. Amamentava-se, trocavam-se fraldas, se ouviam choros, tudo para alimentar o modismo e a satisfação de dizer aos amigos e amigas que se foi a um cinema com um bebê de colo. Em outro cinema, pessoas assistiam ao filme numa galeria onde podiam pedir bebidas, quitutes e conversar. Para quê ir, então, se não se vai assistir o filme?

Nunca entendi porque é preciso encher o estômago enquanto se vê um filme. Talvez, com o cérebro dividido entre ordenar o delicioso caos nutricional e entender os enredos implausíveis, seja possível deixar os neurônios nadando em banho-maria.

O comercial do visa el*ct*on é sinalizador da nossa era de desatenção, gula e desrespeito. Um casal já chega atrasado para a sessão. Aliás, na propaganda, todos os espectadores estão atrasados. Logo começa uma luta renhida para se entrar a tempo na sala. Litros de refrigerante, baldes de pipoca, salgadinhos, chocolates, um arsenal de guloseimas. Dá pra imaginar as dentadas, mastigadelas, ruídos de embalagens sendo abertas, o cheiro impregnante, possíveis arrotos, ringtones dos celulares tocando, enfim, uma sucursal do inferno em forma de sala multiplex.

Pouca gente se importa com isso. Com a desculpa de que se trabalha arduamente e que tudo que se quer é uma sessão de cinema descerebrada, assiste-se a filmes dos quais não se lembrará nem do título. São confusões de estudantes no colégio, explosões em supercâmera lenta e som mixado em 128 canais, profusão de olhares 43, mocinhos gritantes, mocinhas berrantes. É só isso que se exige do cinema? Por acaso, é só a música barulhenta e sexista que existe? A literatura se reduz às fantasias de Sidney Sheldon e aventuras de bruxinhos juvenis?

Há tempo para tudo debaixo do sol, até para o entretenimento light e indolor. Não há quem viva só de preocupações metafísicas e denúncia social. Mas é inegável que muitos filmes estão se beneficiando de platéias com a mentalidade e a exigência estética estacionadas nos 6 anos de idade. É a infantilização do cinema.

Uma pirueta, duas piruetas, bravo, bravo! Três beijos, trinta carros, trezentos mortos, trezentos milhões na conta! Se os romanos e os visigodos saíssem das catacumbas, eles só estranhariam os cortes velozes e furiosos da montagem do filme, pois o tema e o desenrolar das histórias são os mesmos. É o pão e o circo que se materializaram em pipoca e cinema.

É uma pena quando tudo o que se pede da arte é que ela nos entretenha. É uma questão de educação para a arte? De acesso ao questionamento crítico? De simples desconhecimento de um outro tipo de filme? Mas o público mimado não pode atender a nenhum chamado para a reflexão sob o risco de estragar a digestão.

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