05 novembro, 2008

Uma carta para Obama


Comenta Idelber Avelar, brasileiro, professor em Tulane University, eleitor de Barack Obama:

“É de se comemorar, por si só, o fim do regime mais desastrado, inepto e mentiroso da história da república norte-americana. É de se celebrar o surgimento de um verdadeiro estadista, um homem que, no pódio da vitória, não esfrega seu sucesso na cara dos outros, não tripudia sobre os vencidos, não joga seus apoiadores contra os seguidores do candidato derrotado, mas opta pelo caminho oposto: a reconciliação, a união, a possibilidade do diálogo”.

Quando Obama nasceu, os negros eram proibidos de usar os mesmos bebedouros públicos dos brancos e obrigados a dar lugar aos brancos nos ônibus. Por isso, essa vitória é também de Martin Luther King, o líder cristão que praticava a não-violência e a desobediência civil para com leis injustas, e Rosa Parks, a mulher negra que não levantou para dar seu assento a um homem branco e foi presa. Mas o dia 4 de novembro de 2008 torna-se histórico porque estabelece o dia em que os eleitores deram um recado claro: não há raça, não há cor, existem americanos dispostos a trabalhar para modificar o modo de fazer política, mudar a maneira de dialogar com os habitantes dos Estados Unidos e os países do mundo.

Rosa Parks e Luther King (ao fundo).

Se as mudanças serão de fato efetivadas? Sabemos que no jogo político as boas propostas nem sempre estão acompanhadas de vontade política ou gentis intenções. Uma regra política é aquela mencionada pelo príncipe Salinas no livro/filme O Leopardo: “É preciso mudar para que tudo fique como está”.

Porém, nunca se viu tanto desejo de mudanças reais; nunca se viu um candidato a presidente com tamanho poder de catalisar a atenção das pessoas; nunca se viu um eleitorado motivado para enfrentar filas com o intuito de fazer valer seu voto. Anciãos, jovens, deficientes físicos, negros, hispânicos (como são classificados todos os latino-americanos), grupos sociais historicamente marginalizados projetaram em Obama o melhor deles. Esta é a imagem que Obama soube transmitir, a de alguém que saiu da adversidade, das beiras da sociedade, e com capacidade e ousadia chegou ao ponto mais alto da carreira política americana.

Por isso lhe escrevo, Obama, sem oba-oba: "Caro Mr. presidente, antes de cada assinatura de papéis, lembre-se do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas que se dispôs a sair e confiar em você. Obama, não se permita a beligerância para com o forasteiro, antes, porém, o trate com a decência e a correção que você recebeu de eleitores anônimos e famosos. Por último, Barack, honre o significado do seu nome, “abençoado” em árabe, e procure ser a benção prometida. Há uma crise financeira difícil de se debelar, são décadas de uma política externa engessada e há quem lhe veja como fator-chave para que se comece a respirar novos ares de democracia.

"Talvez os eleitores não voltem para a letargia política em que hibernavam. Talvez o discurso de tolerância e conciliação, e não a retórica assassina das armas, mude a relação com os “inimigos da América”, para que não se planeje o aniquilamento do estrangeiro, mas uma abertura de diálogo e resolução conjunta de problemas. Talvez alguns jovens das tantas comunidades pobres nos EUA queiram se espelhar em você e não em certos ídolos machistas e exibicionistas. Talvez algumas mocinhas vejam em Michelle Obama uma razão para se afirmar enquanto mulheres inteligentes e amadas e não como corpos que desfilam por baladas sem fim. Se o slogan “yes, we can” está por trás disso tudo, que você o faça valer, então.
"Na certeza de que você não lerá, mas que receberá outras tantas cartas mais bem escritas,
um torcedor e observador distante".



fotos via G1 e Lucia Malla

3 comentários:

André R. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
André R. disse...

Também votei no Obama e foi um dia histórico para minha família.

Porém, embora Obama seja extremamente promissor, ele terá que provar que é um estadista, um grande presidente. Quanto maior a esperança (do que ele possa ser), maior a expectativa (que seja mesmo).

A meu ver, embora eu tenha sido Obama desde o início, ainda é muito cedo para caracterizá-lo como grande estadista, por isso descordo de Idelber em elevar Obama a um fait accompli.

A vitória esmagadora de Obama sem dúvida mostra o repúdio completo dos Bushismos embaraçosos dos últimos anos e será um alívio ver W sair no dia 20 de janeiro. Só espero que nos café com pão, ele realmente faça a diferente.

Fico feliz em ser parte da história desse grande país.

joêzer disse...

idelber realmente se empolgou. obama tem ares de estadista, mas pra se tornar um ainda tem muito chão.
a crise financeira, o iraque e o próprio fenômeno político de obama são alguns dos desafios a superar.