28 janeiro, 2011

reavivamento e reforma: qual a trilha sonora?

Hoje, clama-se por reavivamento e reforma. A trilha sonora tem que ser a mesma de séculos passados? 

Os hinos compostos no século XIX eram um produto de seu tempo e falavam diretamente às pessoas daquele tempo. Alguns deles, por motivos variados, romperam a barreira do tempo e ainda hoje soam belos. Outros, porém, não envelheceram muito bem. Por isso, de vez em quando são substituídos por novos hinos.

Na época da Reforma, Lutero compôs hinos que falavam a nova língua doutrinária e para isso usou um novo idioma musical. No tempo do Grande Reavivamento dos séculos 18 e 19, outros compositores fizeram músicas que falavam a língua da renovação espiritual que florescia. E para isso, usaram um novo idioma musical, que já não era mais o de Lutero.

Isso não quer dizer que devamos ungir os hinos e mandá-los para o cemitério das línguas mortas. De modo algum. Muitos deles ainda têm muito a nos dizer. E penso que tenham mais a nos dizer do que boa parte dos louvores de DVDs gravados ao vivo e derramados de unção. 

O conteúdo de um hinário tradicional aborda uma grande variedade de temas, cobre séculos de linhagem poética e musical e confirma as doutrinas com adequado senso hermenêutico. Além disso, entre aqueles mais de 600 hinos, vários deles apresentam a linearidade histórica e teleológica do relato bíblico da criação, queda, sacrifício de Jesus, esperança de vida eterna e segunda vinda de Cristo em suas 3 ou 4 estrofes (ver Quão Grande és Tu, Porque Ele vive, Sou Feliz).

No passado, não foi a mudança de estilos musicais que fez a igreja cantar. Antes, foi a renovação espiritual que levou a igreja a cantar e produzir novos (e antigos) modelos de música.

A tarefa do compositor cristão não é fácil. Ele precisa encontrar a “linguagem musical” sem perder de vista sua identidade bíblica. Ele necessita conciliar a “velha e feliz história” com a inovação artística. Ele deve cuidar de modernizar a mensagem sem “mundanizar” a embalagem.

O músico cristão não deve desprezar o legado musical de sua igreja. Antes, a história dos grandes e pequenos evangelistas e compositores do passado deviam servir para inspirá-lo a grandes mudanças espirituais e suaves mudanças estilísticas.

Nas palavras do poeta T. S. Eliot: a tradição é inescapável e cabe ao poeta comentá-la para renová-la, jamais desprezar seu peso.

Embora eu esteja longe dos profetas maiores e tão perto dos compositores menores, uno-me a você, meu caro poeta e compositor. Vamos renovar a tradição musical sem jamais desprezar sua importância e significado ainda hoje. É verdade que nossa música nunca estará à altura da música do céu. Mas não tenhamos receio. A graça divina cobre até nossos farrapos musicais.

8 comentários:

André R. S. Gonçalves disse...

caro Joêzer,
me permita discordar, mas as mudanças estilísticas mencionadas por você (Lutero, sec. XVIII e IX) não foram nada sutis
forte abraço
André

joêzer disse...

ô, my friend, você tem autoridade intelectual pra discordar.
Fiz mesmo uma relação direta demais entre a nova compreensão doutrinária de Lutero e o novo modo de fazer música. Prentendi utilizar os exemplos para mostrar como cada época gera novas práticas musicais.

Mas entendo que não há uma correspondência tão direta assim.
Afinal, havia a questão nacionalista em jogo (o que inclui identidades culturais - o que inclui música) juntamente com questões religiosas.
O livro Musica Poetica (sem tradução no Brasil) faz uma correspondência mais bem elaborada entre a teologia luterana e o novo fazer musical. E como o pensamento teológico-musical de Lutero impactou teorias e conceitos musicais (p. ex: a retórica musical e a doutrina dos afetos).
Já o livro The sound in light (sem tradução também) relaciona a compreensão teológica metodista, dentro do espectro avivalista, à nova canção americana religiosa de Isaac Watts, dos Wesley, et caterva.

Obs: procure na Amazon por "Musica Poetica: Musical-Rhetorical Figures in German Baroque Music", de Dietrich Bartel. Você o entenderá melhor do que eu, que tenho pouca paciência e fraca leitura de partituras.rs

Ezequiel Gomes disse...

Gostei muito do post!!!

tema relevante e abordagem interessante!

André R. S. Gonçalves disse...

Joêzer,
creio que não me fiz entender. Estava falando do aspecto musical mesmo. Queria dizer que as mudanças na música/canção sacra nestas épocas não foram nada sutis. Pode-se enxergar como consequência de uma teologia mais próxima do povo, e, portanto, carecendo de uma estética mais popular.
Por sinal gosto muito deste tipo de análise filosófica-artística-religiosa. Para mim o livro referência nesta área é o "How Should We Then Live" de Francis Schaeffer, mas confesso que as minhas leituras nesta área tenham sido limitadas.
um forte abraço

André R. S. Gonçalves disse...

assinando este tópico... hehehe

Felipe Silvestre disse...

Boa Joêzer! Mais uma vez belo post!

Evandro Costa de Oliveira disse...

"Os hinos compostos no século XIX eram um produto de seu tempo e falavam diretamente às pessoas daquele tempo"

Cuidado com essas generalizações. Tudo é um produto de seu tempo, não? E claro, falava as pessoas daquele tempo, isso é óbvio. Mas o que fez de muitos desses serem passados pelas gerações? Havia esse objetivo na composição?

Não vejo sentido nessa colocação.

os ultimos 4 séculos, especialmente os ultimos 2, são extraordinariamente densos; em todos os aspectos; inclusive no artistico e musical. Há muitas variaveis, contextos etc.

...

Mas quanto ao titulo do texto. Eu realmente não vi nenhuma dissecação, nem proposta. Apenas uma vagacidade do tipo "não sei o q fazer, e propor. Vamos orar por inspiração, em nossa cegueira sem saber e entender o que produzir."

Hoje há uma grande carencia de muita coisa. E acho que ingredientes dos principais que faltam para os musicos e compositores cristãos é meditação, persevença, reflexão, disciplina. Talvez ouvir menos musicas, e refletir mais sobre o que ouviu. Mas estamos na era em que ninguem para refletir e meditar. Quem reflete sobre o silencio, e o aprecia, e o entende?

joêzer disse...

caro Evandro, nem sei se vc ainda lerá esta resposta tão tardia, mas aí vai:

Para um músico de saber e competência como você aparenta ser, o que eu disse no começo foi uma obviedade. Porém, quando eu digo que "os hinos do século 19 eram um produto do seu tempo" é na tentativa de me fazer entender por pessoas que não compreendem que cada época possui uma produção artística própria e não entendem porque algumas pessoas não gostam mais de certos hinos.
Depois, eu complemento na frase (e você omitiu) que alguns hinos, por diversos motivos, resistiram ao teste do tempo.
Você diz que eu não proponho nada. Então, o que diz essa frase do texto: "o compositor cristão (...) precisa encontrar a “linguagem musical” sem perder de vista sua identidade bíblica. Ele necessita conciliar a “velha e feliz história” com a inovação artística. Ele deve cuidar de modernizar a mensagem sem “mundanizar” a embalagem.
Para isso, ele vai precisar certamente dos valores que você cita (reflexão, perseverança...). O que outros textos meus falam sempre por aqui.
Sinto dizer que você leu o texto e entendeu algumas coisas que não estão no texto.