16 fevereiro, 2011

vivendo a música e a vida

O terror do escritor é a folha em branco. O terror do intérprete musical é a folha cheia de pontos pretos. Pianistas, violinistas, trompetistas, cantores, enfim, estudantes e concertistas em geral, todos procuram a melhor maneira de interpretar a música, de transformar em som aquele punhado de linhas e pontos pretos. E tudo começa bem antes de entrar no palco:

1) Escutar
Estamos tão ocupados em aprender a tocar que não paramos para escutar o que tocamos. É bom ouvir os grandes mestres tocando. Mas é melhor ainda escutar a si mesmo. Não para vangloriar-se, mas para sondar sua própria interpretação, perceber falhas, autocriticar os defeitos. Daniel Barenboim:  A arte de executar uma peça  musical é a arte de tocar e escutar ao mesmo tempo.

2) Ler
Partituras musicais fazem suas exigências particulares para entrar no palco. Mas há muito músico que passa por cima do que está escrito e enche de pedal romântico as peças renascentistas ou ponteios brasileiros,  acelera onde é lento, faz rubato onde se pede a tempo. O intérprete tem liberdade, claro. Às  vezes é preciso colocar uns óculos escuros em Bach para dar um passeio com ele fora do museu. Mas eu fico com Maria João Pires definindo interpretação: Aperceber-se da alma do compositor e mais tarde contá-la aos outros, como contaria a história de alguém.

3) Expressar
Os professores costumam exigir certos sentimentos de meninos e meninas de 10 a 13 anos quando estão tocando um melancólico noturno de Chopin ou uma delicada sonata de Beethoven. Não adianta. Como expressar através da música algo que ainda não se viveu? Por favor, ninguém precisa sair por aí derramando sentimentalismo, mas muita gente bem grandinha está a tocar, mas não consegue nos tocar. Parece que  estão tocando a Apassionatta numa máquina de datilografia (ok, geração Y, num teclado de computador). João Marcos Coelho: O segredo da interpretação é fazê-la com o frescor do primeiro encontro e com a intensidade do último.

4) Viver
Perguntaram a Arthur Rubinstein numa palestra na Julliard School quantas horas por dia é preciso praticar o instrumento: Pratiquem, no máximo, de duas a três horas por dia. No restante do tempo, vão viver a vida. Ou vocês não vão ter nada do que interpretar.

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