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a pátria evangélica de chuteiras

A FIFA proibiu que as seleções que disputam a Copa do Mundo façam manifestações religiosas, como fazer rodas de oração após as partidas. Proibiu também que os jogadores mostrem camisas com inscrições relacionadas à fé. Grupos evangélicos começam a articular-se contra essa norma da FIFA. Dizem que isso fere a liberdade de consciência dos jogadores. A FIFA responde que não quer fazer de um evento esportivo um palco para religião e política (a entidade proibiu também manifestações de caráter político, embora futebol e política seja uma receita favorita nos bastidores).

A FIFA está errada? A entidade maior do futebol mundial está cerceando a liberdade de expressão, algo que se tornou um bem tão sagrado da sociedade?

Por outro lado, os mesmos evangélicos que querem ver sua fé confirmada numa competição laica estariam discutindo a liberdade de expressão e crença se, em vez de frases cristãs, um jogador vestisse algo dizendo "I belong to Buda", ou "Sou 100% Ogum"? Ou se estivesse escrito "Deus provavelmente não existe" ou "Eu também sou ateu"?

Para explicar melhor, vou tomar como exemplo o jogador Kaká, que costuma usar uma camiseta com a inscrição "I belong to Jesus" (eu pertenço a Jesus) por baixo do uniforme da equipe. Kaká evangelista? Vamos a outros fatos correlatos.

Kaká, em suas entrevistas, é comedido, e não parece alguém sempre em transe místico. Se ele fosse como alguns artistas gospel de sucesso, talvez falasse assim: "Pois é, Galvão. Aquele passe que eu dei pro Luis Fabiano foi uma iluminação do Espírito"; "aquele foi um gol realmente abençoado"; "nosso time está na unção"; "a intenção era cruzar a bola, mas ninguém sabe para onde o Espírito sopra e a bola caiu direto dentro do gol". Atenção: ler todas as frases com três exclamações.

Mas sejamos francos. Nessa corrente evangélica, para cada Kaká há cem Marcelinhos Cariocas. O primeiro é tratado como um anjo; já o segundo...

O fato de muitos deplorarem a crença na camisa de Kaká e ao mesmo tempo admirarem seu futebol excepcional e seu comportamento extracampo parece dizer que: um, muitos preferem ter o futebol como religião a ver a religião no futebol; dois, outros acreditam que a permissão para fazer proselitismo religioso em campo deve ser inclusiva, dando espaço para toda e qualquer manifestação a favor ou contra as religiões.

E quando cada um quiser aparecer com sua fé estampada (sempre nas vitórias para fazer associações com seu triunfo)? O que impedirá a liberação de proselitismo ecológico e propaganda política? E quanto aos extremistas religiosos do Oriente e do Ocidente?

Muitos evangélicos acham que a cena de jogadores ajoelhados rezando no meio do campo representa o fervor nacional-religioso. É a pátria evangélica de chuteiras “tomando o Brasil para Cristo”, como gostam os slogans gospel.

Então, cá pergunto: você já viu os jogadores logo antes de uma partida? Eles fazem uma roda abraçados, o líder grita palavras de ordem, xinga o adversário, eleva o espírito da moçada e aí todos rezam um Pai-Nosso no grito. E quando os jogadores católicos enveredam pelo “Ave-Maria cheia de graça...”? Assim é o Brasil: o maior país católico do mundo tabelando com o maior país evangélico do mundo.

Assim como tem brasileiro que só é patriota no estádio, tem cristão brasileiro que só é crente na igreja. Um vai pra rua com trio elétrico se gabar de pentacampeonato com a multidão, o outro se orgulha da multidão numa marcha religiosa com trio elétrico na avenida. Só são semelhantes na hora do gol: levantam a mão pra cima como se Deus fosse o décimo-segundo jogador. Para esses, Deus não joga dados, mas bate pênaltis.

Não há problema em agradecer a Deus por conquistas. Isso apenas demonstra um coração grato. Mas, quando isso é feito numa acirrada disputa dita "esportiva" e parece espetacularizar a fé, penso que há um desvirtuamento da religião. Não vejo "evangelicofobia" na proibição da FIFA. Isso talvez evite extremismos. Mas, quando a mesma entidade libera propaganda de cerveja na Copa, estou certo que a FIFA deturpa o sentido do esporte.



Comentários

"Pátria que me pariu! Quem foi a Pátria que me pariu?", canta Gabriel, O Pensador.

Vc já ouviu Gabriel, o Pensador? kkkk

Tô passando pra agradecer o post anterior, J.M., em que você faz uma ma-ra-vi-lho-sa dissertação sobre os livros. Vc sabe que sou apaixonada por esse assunto, como sou apaixonada por livros.

Tu 'tás ficando seletivo demais porque está ficando velho? Ou a maturidade tem te mostrado a inteligência que reside na seletividade? Espero que seja a última. Eu tenho 29 anos, e sou seletivíssima! Mas leio de tudoooo (quase tudo [com menos ênfase agora]).

Parabéns, mano! Boas férias do CtbaCoral.
Este comentário foi removido pelo autor.
joêzer disse…
Li em algum lugar que a sabedoria consiste na redução e seleção de livros. mas para aprender a selecionar se tem que primeiro ler um bocado de coisas, né?
Anônimo disse…
SOU EVANGÉLICO E TE PERGUNTO:SERÁ QUE FUTEBOL É BOM,SERÁ QUE É BOM ASSISTIR 22 HOMENS SE DEGLADIANDO AO CORRER ATRÁS DE UMA BOLA. VOCE JÁ PAROU PRA PENSAR QUE QUANDO UM JOGADOR EMPURRA O ADVERSARIO,É UM
PAÍS QUE PROVOCA O OUTRO E ISSO PODE SE DESENCADEAR EM UMA GUERRA?
"PENSE E REFLITA" JESUS TE AMA
ELIAS
joêzer disse…
caro amigo,
não conheço quem considera que mesmo uma eventual briga entre dois ou mais jogadores cause estremecimento nas relações entre dois países. EUA e Irã já se enfrentaram em Copa do Mundo e houve até gentileza por partes dos jogadores de ambas as seleções.
Aliás, o futebol até já parou uma guerra. Nos anos 60, durante excursão do Santos à Biafra (país africano), houve uma trégua entre os dois grupos rivais da guerra civil. Só pra ver Pelé.
Guerras acontecem por motivações econômicas e políticas. Uma guerra nunca começou por motivos de disputa esportiva.
Mas prefiro um futebol sem violência também.
Um abraço
Daiane disse…
A Fifa deveria também proibir seleções de fazer propaganda de bebida alcoólica.
joêzer disse…
concordo com você, Daiane.

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