02 dezembro, 2008

A recessão americana e o futuro duvidoso

Para quem achava que o pior já tinha passado, olha a recessão aí, gente! Contrariando as previsões otimistas, os Estados Unidos acabam de assumir que atravessam uma dura recessão. Virá a depressão?

Se o amigo, a amiga ainda não decoraram todas as novas palavrinhas do dicionário do caos financeiro, como subprime, crédito hipotecário, ativo lastreado e liquidez, posso pelo menos dizer qual a diferença entre recessão e depressão. Recessão é quando seu vizinho perde o emprego. Depressão é quando é você quem perde o emprego.

Em entrevista ao jornal Estado de S. Paulo (30/11), o economista americano Michael Pettis, professor de Finanças da Universidade de Pequim, analisa a situação global [grifos meus]:

Qual é o papel da China na solução da crise mundial?

Os dois principais atores do desequilíbrio global são Estados Unidos e China. Os Estados Unidos porque durante dez anos consumiram muito além do que produziam e a China porque durante dez anos produziu muito além do que consumia. O excesso de produção da China era consumido pelo excesso de demanda americano. Havia certo equilíbrio, mas ele era insustentável. Ele implicava que os Estados Unidos teriam enormes déficits comerciais para sempre e a China teria enormes superávits comerciais para sempre. A questão era qual dos dois seria interrompido primeiro. A parada veio nos Estados Unidos e o excesso de consumo americano está se reduzindo.

Da maneira como o equilíbrio global funciona, se a demanda das famílias americanas cai, tem de haver um ajuste em algum outro lugar. O consumo caiu e agora a produção está muito alta.

O consumo privado nos Estados Unidos não vai aumentar. As famílias precisam poupar mais e consumir menos para quitar suas dívidas. Isso deixa a tarefa para o governo. Mas temos de ser muito cuidadosos porque, se apenas substituirmos as famílias pelo governo no excesso de consumo, não estaremos resolvendo o problema. Vamos apenas adiar o ajuste. Por isso, precisamos que o consumo aumente em outro lugar, e esse lugar é a China.

E o governo?

Se assumirmos que o consumo das famílias americanas vai cair 5% do PIB dos Estados Unidos, isso significa que o consumo na China deve se expandir em 17% do PIB chinês para compensar a queda. É muito, especialmente quando consideramos que o consumo na China gira em torno de 40% do PIB. Nós precisaríamos que o consumo aumentasse entre 30% e 40% para compensar a retração nos Estados Unidos. Isso não vai acontecer.

O sr. espera uma recessão global ainda mais severa?

Sim, vai haver uma desaceleração no mundo e nós temos de lembrar que, em 1930, o pior aconteceu nos países que tinham superávits em conta corrente. Eu acredito que a mesma coisa se repetirá agora.

O pacote de US$ 586 bilhões anunciado pela China há três semanas é suficiente para evitar uma forte desaceleração da economia?

Não. O pacote envolve grande quantidade de dinheiro, mas não sabemos os detalhes. De qualquer maneira, há um problema de timing. A demanda americana está se contraindo muito rapidamente. Portanto, a fonte alternativa de demanda deveria se expandir no mesmo ritmo. Isso é muito difícil. Acredito que o próximo ano vai ser bem mais difícil para a China do que muitos esperam.

Nesse link, a entrevista completa.

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A suma de tudo que lestes é: o professor diz que nosso futuro é duvidoso. Ele vê grana [pouca] e dor [muita]. Ou seja, não é só em Wall Street que haverá choro e ranger de dentes.

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