18 dezembro, 2008

A vez da música e a voz do coração

Meninos carentes e marginalizados, uma escola em ruínas, funcionários desmotivados, um diretor autoritário. Quem poderá salvar essa escola? Um professor obstinado e cheio de amor pra dar. Aliás, cheio de música pra cantar. O messias é quase sempre um professor de música, anônimo, rejeitado, uma abelhinha laboriosa capaz de transformar a escola e a vida dos meninos.

Esse é o argumento de filmes como Mr. Holland – Adorável Professor (1990), Música do Coração (1998) e de A Voz do Coração (Les choristes, França, 2004). Cada um desses filmes apresenta um cenário semelhante de desordem escolar e problemas individuais e juvenis.

No primeiro filme, Richard Dreyfuss é um professor de música perfeccionista que leciona numa escola pública que lhe disponibiliza uma sala específica e instrumentos para os alunos – no Brasil, isso seria uma realidade remotíssima.

Em Música do coração, uma professora de violino consegue montar uma pequena orquestra numa escola da periferia, a custo de muito suor e lágrimas (dos atores e dos espectadores). A grande atriz Meryl Streep evita a pieguice e injeta até certa rudeza na interpretação da violinista, o que a torna mais próxima de um ser humano. Porque convenhamos, é muito difícil ser como aquele professor de Sociedade dos Poetas Mortos o tempo todo.

Falando nisso, os professores brilhantes que fazem alunos vencedores são um híbrido da nobreza de Sidney Poitier em Ao Mestre com Carinho, do auto-sacrifício de Conrack e da simpatia do prof. Freddy Shoop em Curso de Verão.

Os franceses também têm seus problemas com educação escolar. E professores devem assistir à Quando Tudo Começa (1999) para confirmar que o assunto ‘educação’ foi relegado a segundo plano mesmo nos países do chamado Primeiro Mundo. Voltando para A Voz do Coração, que se passa na França em 1949, o professor Clement Mathieu irá, com todo o afeto que se encerra, mudar o caótico cenário que encontra na escola.

A música é usada pelo professor não apenas para aliviar a brutalidade a que os alunos são submetidos, mas também para fazer com que eles possam evitar o destino de delinqüência que os espera. Para alguns daqueles meninos, a música não é apenas uma saída. Mas a única saída para transcender aquele ambiente opressivo.

O filme é esquemático como todo filme edificante. Mas, peraí? Qual o problema com os filmes com mensagem edificante? Todo filme com mensagem é acusado pela crítica intelequitual de sentimentalismo e moralismo. Reconhecendo que muitos são assim mesmo, pergunto: Será que é necessário encher o filme de cortes e diálogos espertinhos, luzes e contraluzes, câmera trôpega e montagem não-linear, enfim, todo filme tem que ser feito com o barroquismo e o exagero insuportáveis da série Capitu, por exemplo?

A Voz do Coração quer apenas contar linearmente uma história e chamar a atenção para o valor da música como agente transformador. Esse filme não se dirige para os cínicos de plantão que ficam nas academias vivendo da “música pela música” enquanto a realidade cruel toma conta das comunidades em risco social. De fato, o filme tem lá suas pequenas fraquezas assim como há organizações fraudulentas que abusam da pobreza para faturar com seus projetos de inclusão social.

Mas há seriedade também, tanto no aspecto da civilidade desenvolvida com o auxílio da arte, como mostra o filme, quanto na luta cotidiana de profissionais da música envolvidos com crianças cuja saída (às vezes, a única) da situação em que se encontram está em fazer música, em tocar um instrumento na orquestra ou banda, em cantar num coral.

Como o maestro do recente (e brasileiro) Orquestra dos Meninos ou o professor de A Voz do Coração, há professores que não tem a pretensão de mudar o mundo ou ficar famoso com suas composições. Muitos deles querem apenas fazer valer o resultado de seu trabalho. E quando uma criança está envolvida numa orquestra ou num coral, ela pode estar começando a superar sua herança opressiva e recriar seu destino.

Atualização: o título do filme com Meryl Streep é Música do Coração, e não O Som do Coração, como eu havia postado anteriormente.

4 comentários:

Jayme Alves disse...

Achei surpreendente que, após ter feito, no ano passado, uma apreciação elogiosa da série "A Pedra do Reino", você destaque agora "o barroquismo e o exagero insuportáveis da série Capitu", sendo que ambas foram geradas no mesmo projeto global (o "Quadrante") e vieram à luz pelas mãos do mesmo diretor (Luiz Fernando Carvalho), compartilhando, assim, muitos genes estéticos.

Particularmente apreciei bastante o que pude ver de "Capitu", mais do que havia apreciado "A Pedra do Reino", pois acho que, bebendo na fonte machadiana, houve uma bem-vinda redução no grau de embriaguez estilística do diretor (ao beber na obra de Suassuna, o grau somente subia), sem prejuízo para a sua inegável inventividade.

Houve, claro, admiradores de Machado que não gostaram da adaptação - por ser ousada demais ou de menos - mas, sabendo que você gostou de "A Pedra do Reino" Reino", foi inesperada a sua observação desfavorável a respeito de "Capitu".

joêzer disse...

amigo jayme,
o que era uma novidade estilística em 'a pedra' agora me pareceu um maneirismo;
a equipe global adaptava uma narrativa cujo original remontava à tradição ibérica e ao cordel nordestino, material que o diretor conseguiu transformar em imagens vivas. Ali, edição, cenários e música se mostravam mais coerentes em relação ao conteúdo de origem.

Já o original de 'capitu' é seco e direto, sem pompa. E LFCarvalho poluiu demais a obra.

A teatralidade das interpretações funcionava bem em 'a pedra', pois tudo remetia a um locus mitológico. Dom Casmurro é mais 'real' e a teatralidade em 'Capitu' espanou a verossimilhança do enredo.

Os riscos de giz no chão à la Dogville (vc conhece essa obra-prima?)e o uso do pop/rock na trilha à la Maria Antonieta (da sofia coppolla) soaram como clichês pós-modernos que me cansaram os olhos.

não teria sido mais interessante encenar dom casmurro com outro caráter estético?
por exemplo, 'lavoura arcaica' (de raduan nassar), do mesmo LFCarvalho, é cinema em estado de graça sem esteticismo.

Jayme Alves disse...

Entendo as suas observações. Imagino que não foram poucos os que viram na opção pela teatralidade e na recusa da representação naturalista, colada ao real, uma traição ao estilo sóbrio e límpido de Machado.

Concordo que o barroquismo estético casava melhor com as raízes que alimentavam a adaptação no caso de "A Pedra do Reino", embora também visse aí uma confluência de excessos que pesava na obra e tornava difícil a sua fruição. Por outro lado, o choque entre o maneirismo do diretor e o pendor classicizante de Machado pareceu-me capaz de produzir resultados interessantes.

Além disso, a opção do diretor não é descabida e encontra amparo em determinada leitura do romance machadiano (no qual, aliás, o teatro e a representação estão muito presentes, sendo que Bentinho utiliza a imagem da ópera para descrever a sua narrativa), a qual desconfia do narrador e da sobriedade e distanciamento da sua narração, sublinhando o quanto ela é construída por ele, o quanto ela é (de)formada pela fértil imaginação dele (vários trechos dão testemunho disso). Uma série de opções estéticas compromete "Capitu" com tal leitura. Enfim, são escolhas que parecem interessantes para uns, mas inadequadas para outros...

Obs.: Embora já tenha lido várias apreciações elogiosas de "Dogville" e "Lavoura Arcaica" (que seria o melhor filme nacional dos anos 90 pra cá), ainda não tive a chance de assisti-los (já li, sim, o poderoso romance de Raduan Nassar) - tentarei seguir as dicas e fazer isso num futuro próximo.

joêzer disse...

a idéia de "ópera" ajuda a compreender melhor a obra. apreciei bastante.
o ponto-chave talvez seja a expectativa do espectador quanto à fidelidade na 'adaptação', na tradução em imagens do livro.

'vidas secas' como filme é graciliano em movimento e sem artifícios, assim como 'a hora da estrela' soube transpor clarice. mal-acostumado com o estilo dessas adaptações, esperei mais naturalismo de 'capitu'.

sei que um dos meus livros preferidos, 'dois irmãos', do amazonense, como eu, milton hatoum, faz parte do projeto 'quadrante' (um projeto louvável, aliás, considerando o nível da tv). apertemos os cintos!