25 agosto, 2009

inimigos públicos, amigos íntimos

Uma das amizades mais estáveis e duradouras é aquela celebrada entre o cinema e a história de criminosos. Não estou falando da interferência do crime organizado na produção de um filme, como o caso clássico e suspeito em que Frank Sinatra teria ganhado um papel relevante em A Um Passo da Eternidade (1953) com uma “forcinha” da máfia – o cineasta Francis Coppola fez uma referência nítida a esse episódio em O Poderoso Chefão.

Como Roliúdi não faz nada que o público em geral não esteja sedento por ver, de alguma forma, então, a vida bandida suscita interesse por parte da platéia. Talvez por curiosidade, a mãe de todos os pecados, talvez por fome de vingança, por desejo de ver a bandidagem no xilindró ou, em muitos casos, por querer ver a autoridade policial levar um baile dos bandidos.

Um dos primeiros filmes americanos, produzido em 1903 pelo inventor Thomas Edison, já tratava de assuntos policiais: O Grande Roubo do Trem. No entanto, foi a partir dos anos 30, quando os efeitos da Lei Seca e da Grande Depressão criaram a ocasião para o ladrão, que o cinema desenvolveu uma relação de glamourização lucrativa com os criminosos, cujos principais nomes eram chamados pelo FBI de “inimigos públicos”. Foi a época de Baby Face Nelson, do casal Bonnie e Clyde e John Dillinger, este o inimigo público nº 1.

As histórias registravam peripécias cheias de tensão e romance, que prendiam a atenção nas cenas de perseguição e morte e também mostravam o bandido com uma faceta trágica e ao mesmo tempo romântica. Compareciam ainda astros de primeira grandeza, como James Cagney, Paul Muni e Clark Gable.

No começo da era sonora do cinema, Alma no Lodo (1930) e Inimigo Público (1931) inauguraram o filme de gângster pintando o retrato da ascensão de delinquentes como empresários do crime que simbolizavam o anseio de afirmação social por meio da busca do sucesso a qualquer preço. Essa parecia ser uma caracterização inspirada tanto nos homens de negócios de Wall Street quanto nos chefões do crime. Nos anos 70, O Poderoso Chefão ressaltaria essa relação ao mostrar que os moldes da livre-empresa capitalista tipicamente norte-americana seriam adotados pela máfia italiana surgida na segunda metade do século 20, como fez a família Corleone do filme.

Voltando aos anos 30, filmes como Inimigo Público, Scarface e Vencido pela Lei apresentaram um novo modelo dos fora-da-lei. O anti-herói de ambição desmedida e torpeza moral tinha agora seus movimentos másculos encimados por um rosto de galã. Ele ganhava uma mocinha apaixonada que enxergava um lado humano que a polícia não via. O público chegava a torcer e compadecer-se com a morte do bandido galante.

O cinema não criou nada que já não existisse nos jornais da época. Em Inimigos Públicos, lançado recentemente, o criminoso/personagem John Dillinger (na pele do ator Johnny Depp na foto) tem uma noção de sua fama quando, capturado mais uma vez, vê a tempestade de flashes de câmeras que o rodeia. Essa dimensão de celebridade é realçada quando suas respostas irônicas divertem os jornalistas durante uma entrevista após ser preso outra vez. A era das celebridades midiáticas abria espaço para os marginais boa-pinta e, principalmente, de “bom coração”, já que Dillinger não atirava em gente desarmada nem roubava civis, só roubando bancos, onde estaria o dinheiro segurado dos mais ricos.

Sintomaticamente, o último cerco à Dillinger ocorreu enquanto ele assistia ao filme Vencido pela Lei (cartaz ao lado), em que o supergalã Clark Gable, o futuro Rhett Butler de ...E o Vento Levou, encarna um gângster que parece inspirado nos bandidos galantes daquele tempo. Mais que histórico, o encontro virtual de duas celebridades é cimentado pelas ações do personagem do filme, que vive para aproveitar a vida enquanto não é preso ou morto pela polícia.

Nesse ponto, já não se sabe se o cinema de gângster foi inspirado pelo mito do marginal charmoso ou se certos criminosos imitavam os marginais cheios de charme interpretados pelas estrelas do cinema. Seja como for, tanto o bandido real quanto o da telona eram lobos em pele de cordeiro, artifícios criados pela fantástica fábrica de celebridades.

2 comentários:

André disse...

Joêzer, postei mais um artigo sobre os infames tamborins de 1 Crônicas 15... veja lá!

recebi um email do Levi alardeando sua tese... bad news for you?? hehehe

abraçø

joêzer disse...

ao contrário, andré.
o levi tem se interessado pelos meus artigos e o site música e adoração é um ponto de referência para muitos leitores. espero que seja o prenúncio de good news. rsrs
irei lá ver seu texto.