14 agosto, 2009

quem canta, entenda

Como algumas toadas de louvor de oito versos repetidos ad infinitum (ou "ad extasis"), assim têm se mostrado ao mundo certos modelos de igrejas surgidas na esteira do neopentecostalismo e em avançada expansão: como repetições de histórias de má-fé e engodo.

Se o Ministério Público investiga, os líderes religiosos (e alguns fiéis) se dizem perseguidos pela concorrência; se outros cristãos enxergam falhas vergonhosas, os seguidores dos "bispos" dizem que só quem pode julgar é Deus. Não vou entrar no mérito da "perseguição" - que só existe no plano da concorrência midiática. O que me chama a atenção é essa pressa em repudiar todo julgamento alheio.

Quando uma crítica é dirigida a uma organização religiosa, não se está julgando senão aquilo que já está fartamente notado, investigado e noticiado. Fiados numa equivocada interpretação do famoso "Não julgueis, para que não sejais julgados", os defensores leigos dos bispos neopentecostais não admitem críticas. Ora, meus caros, apontar falhas, repreender o erro e chamar atenção para o ensino fidedigno da Palavra não é julgamento nem tampouco condenação. Além disso, não se pode esquecer que Paulo repreendeu a Pedro, Elias denunciou Acabe e Natã indicou o pecado de Davi.

As evidências de distorção da Bíblia em causa própria, a sonegação de princípios doutrinários em benefício do evangelho pragmático do milagre e do estádio lotado, a fundação de um império financeiro baseado na doação de fiéis, a cantoria que advoga a extravagância no louvor e a paixonite por Jesus: as novas atitudes do recente evangelicalismo nacional não escaparam à pena desafiadora do compositor e cantor João Alexandre, poeta do cristianismo contemporâneo que deixou a suavidade da metáfora um pouco de lado e não economizou agudas e claras referências na letra da canção É Proibido Pensar.

Ele foi acusado de estar julgando seus irmãos por causa da letra da canção É Proibido Pensar. O músico pode ter se excedido, mas certamente ele foi porta-voz de muitos cristãos que veem com dissabor o panorama geral do que um dia conheceram como cristianismo. Pergunta: de quem, de fato, vem a ofensa? Do artista que não fechou os olhos nem a boca e denuncia os modelos de crescimento eclesiástico levados adiante por muitos líderes religiosos e artistas gospel? Ou desses mesmos bispos e levitas, tão rápidos em elaborar novas estratégias de adoração e tão morosos em avançar na compreensão doutrinária?

A seguir, a letra da música (quem canta, entenda):

É Proibido Pensar

Procuro alguém pra resolver meu problema
Pois não consigo me encaixar neste esquema
São sempre variações do mesmo tema
Meras repetições

A extravagância vem de todos os lados
E faz chover profetas apaixonados
Morrendo em pé, rompendo a fé dos cansados
Com suas canções

Estar de bem com vida é muito mais que renascer
Deus já me deu sua palavra
E é por ela que ainda guio o meu viver

Reconstruindo o que Jesus derrubou
Recosturando o véu que a cruz já rasgou
Ressuscitando a lei pisando na graça

Negociando com Deus

No show da fé milagre é tão natural
Que até pregar com a mesma voz é normal
Nesse evangeliquês universal
Se apossando do céus

Estão distantes do trono, caçadores de deus
Ao som de um shofar
E mais um ídolo importado dita as regras
Pra nos escravizar.

É proibido pensar

2 comentários:

Inês Hartt disse...

Tenho acompanhado o seu blog e cada texto seu me ajuda a esclarecer a mudança ocorrida na igreja adventista, em especial, e nas igrejas evangélicas de maneira geral.

Estive fora da igreja por 20 anos, tornei-me professora de música no meio antroposófico e cantora lírica. Levei um grande susto!
Não voltei para criticar nada, mas para contribuir com a música.
Eu so queria entender... e você está me ajudando.

Obrigada!

joêzer disse...

inês,
obrigado pelas palavras gentis que me fazem acreditar que não estou sempre errado.