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"Deus é amor" ou "Deus, meu amor"?

Na interpretação contemporânea do cristianismo, a concepção da majestade de Deus tem perdido espaço para a noção de um Deus mais próximo da criatura, um Deus menos rei e mais companheiro de viagem. Em oposição ao antigo conceito da divindade inalcançável, cujo aspecto mais notório foi o monumentalismo das igrejas medievais e o cantochão em latim, passou-se a outra noção de Deus, em que o aspecto central não se nota no projeto arquitetônico das igrejas, mas na forma de adoração que enfatiza uma extremada intimidade.

Essa intimidade está baseada na compreensão do cristão moderno sobre o “amor” divino e humano. Podemos dizer que a interpretação sobre esse “amor” tem sido fundamentada menos na doutrina bíblica e no relacionamento Deus-criatura e mais no romantismo idealizado e no relacionamento homem-mulher.

A Bíblia abre espaço para a representação do amor de Cristo pela igreja por meio da linguagem simbólica do romance: casamento, Noivo e noiva, noiva ataviada. Como forma de tratamento da divindade, pode-se usar também o referencial simbólico humano para o romance. Na música, isso é notado na proximidade melódica entre as baladas românticas e certas canções gospel. Desse modo, não estaria errado usar a linguagem humana do amor para retratar o relacionamento com Deus.

De outro lado, a Bíblia que concede lugar à representação romântica ideal (ou idealizada, diriam alguns), como nos Cânticos de Salomão, uma representação dos elementos passionais que envolvem um homem e uma mulher que se amam, também apresenta o amor realista, como o relacionamento de Abraão e Sara. Portanto, onde Salomão requer poeticamente virtudes físicas e românticas, a história de Abraão e Sara indica que o amor requer compromisso e sacrifício.

Qual tem sido o conteúdo das letras das canções cristãs contemporâneas sobre Deus? Qual seu sentido de “amor”? Poucos vão discordar de que, nas canções atuais, o amor sacrificial tem sido gradualmente substituído pelo amor idealizado.

Uma das expressões mais usadas nos últimos anos é "apaixonado por Jesus". Embora a paixão seja um elemento indispensável à persistência do amor, o caráter ambíguo do termo "paixão" faz lembrar também romancezinhos de verão, casos de pouca duração. Outra compreensão do termo é o sacrifício, mas o entendimento neocristão de abdicação e serviço tem exigido pouco mais que abstinência de drogas ilícitas e de sexo pré-casamento dos novos conversos.

Não apenas as canções gospel obedecem um percurso melódico identificado com as baladas românticas (prática que às vezes pode apresentar bonitas e marcantes canções, diga-se), mas as letras reforçam o que está patente na melodia (reforço elementar e até necessário, lembre-se). Problemas surgem quando a letra ressalta uma intimidade tão ambígua entre homem e divindade a ponto de confundir-se com o relato de uma paixão sensual comum.

Os exemplos a seguir mostram que parte das canções sobre Deus e sobre Cristo usam termos e expressões romantizadas que dizem muito sobre a forma de adoração contemporânea, cuja linguagem mais coloquial relativiza a visão tradicional de Deus.

Apaixonado, da cantora Aline Barros, é uma canção com referência nas alegres baladas das duplas sertanejas de sucesso. Embora a segunda estrofe da canção, ao mencionar rapidamente a morte de Cristo “naquela cruz”, explicite liricamente o motivo do adorador apaixonado, as expressões coloquiais levam alguns a perguntar se não está havendo uma confusão entre a Paixão de Cristo e a paixão romântica.

Você mudou meu jeito de pensar
Você mudou meu jeito de agir
Me deu sentido
Você está comigo
Vinte e quatro horas, e ainda assim é muito pouco

Apaixonado
Apaixonado
Apaixonado
Por você Senhor estou

Segundo Wolfgang Stefani, a música do movimento carismático indica que “o dramático e o sensual foram utilizados deliberadamente para criar uma experiência de envolvimento”. O avivamento musical evangélico que parece intensificar as cargas de dramaticidade e de afetividade sensual (não-sexual) está bem presente nas seguintes canções:

Amor Extravagante, em que David Quinlan emprega termos pouco usuais na tradição da música cristã de representação do relacionamento Cristo-fiel, como “um lugar para dois” e “embriagante” - estaria ocorrendo no meio gospel uma radicalização das propostas litúrgico-musicais de Darlene Zschech, encontradas no livro Adoração Extravagante?

O Seu amor é extravagante,
E a Sua amizade, é tão íntima.
(...)
Sendo levado, por Tua graça estou
E Tua fragrância, é embriagante quando contigo estou.
O Seu amor é extravagante.
(...)
Um lugar para dois, só eu e Você
Meu Amado e eu, só eu e Você.

Bate Forte Coração, cantada por Sula Miranda, cujas canções lançadas após sua conversão denotam similaridade musical em relação às baladas sertanejas que fizeram seu sucesso secular:

O meu amor é todo teu, você me conquistou.
Quando os teus olhos invadiram os meus
Meu coração não suportou
Com o teu jeito todo especial
Me fez abrir o coração
(...)
Bate forte coração
Um lindo sentimento este amor produz
Pra dizer nesta canção
Que este amor é Jesus

Em Pra Sempre Te Amar, Sula Miranda ressalta uma ambiguidade que torna difuso o ser amado, se a divindade ou um homem:

Lembrar do teu rosto tão lindo
Tua boca sorrindo
Me dizendo, te amo
(...)
Te amo te quero
Só em ti encontro prazer
Teu amor mudou minha vida
E trouxe alegria pro meu viver

Alguns cancionistas gospel reconfiguram a terminologia bíblica noivo-noiva para uma relação que se aproxima da fantasia sensual-romântica, como na canção O Noivo e a Noiva (Quinta Gospel):

Como o noivo e a noiva se amam,
Eu te amo Senhor,
Como o noivo e a noiva se abraçam,
Eu te abraço Senhor
Como o noivo e a noiva se tocam,
Eu Te toco Senhor

Vem Minha Noiva, do Ministério Casa de Davi:

Meu lindo Noivo, Meu lindo Noivo,
Vim Te encontrar, vim Te abraçar,
Meu lindo Noivo, Meu lindo Jesus

Se a compreensão de adoração extravagante dos ministérios de louvor tem sido, bem, extravagante, a literatura evangélica incentiva a ideia de intimidade com Deus com o uso de linguagem romântico-passional, como se nota no livro de Sam Himm, Beijando a Face de Deus: “Nunca perca a simplicidade de apenas apaixonar-se por Jesus e de simplesmente mandar um grande beijo para Ele” (p. 67).

Da interpretação bíblica e profética de que "Deus é amor" os novos conversos são estimulados a dizer "Deus, meu amor". Em certo sentido, a expressão "apaixonado por Jesus" equivale a dizer "Jesus é dez!" ou "sou 100% Jesus". Não são expressões incorretas, mas traduzem o espírito de evangelismo desses tempos, em que a compreensão tradicional da santidade de Deus e de reverência é confundida com frieza e formalismo e busca-se substituí-la pelo emocionalismo da pseudointimidade.

Comentários

ângelo mendes disse…
É a música gospel criando uma nova imagem de Deus: uma imagem romantizada e até mesmo vulgar.
André disse…
Excelente matéria.

Creio que o problema não esteja tanto no amor "apaixonado" por Deus afinal, como você mencionou, o livro de Cantares está cheio de inuendos românticos e sexuais que simbolizam a relação divino-humana.

O problema está justamente na nossa visão do AMOR que é quase sempre erótica e deturpada e não no simbolismo em si, haja vista que o próprio Deus a utiliza.

Por outro lado não seria possível que o estar apaixonado por Jesus possa purificar nossa visão de estar apaixonado por outro ser humano? Creio que é possível.

Também creio que é preferível estar "apaixonado" por Jesus (a despeito da estreiteza deste amor) do que ter medo, receio, apreensão de estar com ele, sentimento este que tem sido a ênfase de algumas denominações que pregam a conversão meramente como escape do inferno. Querer ser salvo deve ter quase nada de medo de inferno e muito mais de desejo de estar no céu.

Considere também que o amor "agape" no sentido idealista do termo é também limitado pela natureza humana caída que contamina todos os sentimentos humanos sem exceção ("Enganoso é o coração..."). Até este amor agape, reverente e respeitoso corre o risco de ser uma "pseudointimidade" devido às qualidades salvíficas que conferimos a este ou à imagem deturpada do caráter de Deus que possamos esposar ao achar que ele nos aceita por nossos méritos ou qualidades pessoais ou por um "amor verdadeiro".

Acima de tudo, lembremos que a obra intercessória de Jesus no Santuário (Veja o livro de Hebreus) através da obra do Espírito, intercede até pelo amor defeituoso que possamos expressar a ele.

Que maravilha é a obra de Jesus no Santuário, ela purifica até minha "paixãozinha" por ele e nos faz "aceitáveis no Amado".
joêzer disse…
caro andré,
penso que o "medo" e a "paixãozinha" podem, ao longo da caminhada cristã, dar lugar ao "temor" (princípio da sabedoria) e ao "amor".
seus comentários sempre trazem novas perspectivas para a abordagem de um bom tema. thanks!

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